A cor do litoral
Sobre a plataforma continental, a luz bate no fundo e volta verde. É a água que todo pernambucano conhece de Boa Viagem.

Esta página não se lê, se atravessa. Você larga no Marco Zero do Recife e chega ao Mirante do Boldró. O mar muda de cor sob você, a noite cai no meio do caminho, e na aproximação da ilha você disputa o mesmo duelo tático dos veteranos.
A REFENO você não participa, você vive.
Depoimento de tripulante · acervo REFENO
Uma única linha no oceano liga o Marco Zero de Recife ao arquipélago de Fernando de Noronha. Sem escala, sem parada. Desde 1986.
Centenas de barcos manobram a poucos metros uns dos outros sob as pedras do Marco Zero. As vozes cortam o ar coordenando adriças e escutas, cada proa busca barlavento e foge do vento sujo deixado pela frota. É preciso olhar nos olhos do adversário, regular os panos na casa do milímetro e ter nervo para desviar de colisão iminente. Vencida a boia de contorno, a agitação dá lugar a outro ritmo.
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FotoA regata não nasce no tiro de largada. Ela nasce no planejamento da tripulação, na escolha dos cabos, na vistoria de segurança e nos sonhos trocados na dársena do Cabanga. Na água azul a única moeda que importa é o vento.
Você ali só tem o vento, o sol e o barulho da água quando o casco corta o mar. Você consegue deixar a mente leve, vazia.
Depoimento de tripulante · acervo REFENO
Sobre a plataforma continental, a luz bate no fundo e volta verde. É a água que todo pernambucano conhece de Boa Viagem.
O fundo cai. O verde perde força e o azul começa a dominar. A costa já é uma faixa cinzenta atrás do ombro.
Cinquenta milhas fora da costa, o Atlântico troca de cor. É o sinal, reconhecido por toda a frota, de que a travessia oceânica de verdade começou.
No fim de tarde, o azul denso assume tonalidade roxo-profunda sob os cascos. Não é efeito de câmera. É o que a tripulação vê do convés.
Os alísios que sopram do continente africano seguram a frota num través de bombordo constante. Velas caçadas no limite, poucas manobras de bordo, o barco deslizando de lado. É o cenário dos sonhos de qualquer cruzeirista, e também a hora de conservar energia para a noite.
Na Baía de Santo Antônio a água clareia de novo. Turquesa sobre areia vulcânica. Depois de 300 milhas, é isso que recebe a frota.
Sob uma abóbada de estrelas quase tocáveis, o velejador assume o leme no frio da madrugada. A escuridão amplia os sons: o chiado da espuma no casco, o estalar das escutas sob tensão. Quando o pirajá entra, o vento salta em minutos e o leme exige força física e controle mental para manter o rumo, sem estol e sem avaria de mastro.
Muitos barcos modernos que abusam do piloto automático quebram nessas horas. Os veteranos sabem que a roda se empunha na mão, sentindo a resposta de cada onda na polpa dos dedos. A maioria da frota enfrenta de 30 a 45 horas de mar aberto: a travessia se decide na constância, não no arranque.
O cérebro torna-se o pior inimigo nas horas de vigília, criando sombras onde há apenas mar.
Crônica histórica · Cabanga Iate Clube
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FotoNas primeiras edições, sem posicionamento global, as tripulações deitavam no convés e mapeavam a trajetória dos aviões comerciais rumo à Europa. Como as aeronaves se orientavam pelo rádio-farol no topo do Morro do Pico, bastava alinhar a proa com o rastro de luzes no céu. Os jatos viravam estrelas-guias modernas.
Maurício Castro comandava o Winston, um Brasília de apenas 27 pés. Atravessar o Atlântico num barco desse porte era bravura hercúlea: rumo magnético de 60 graus mantido na escuridão, sextante, bússola e navegação estimada calculada no papel. Qualquer erro sistemático podia fazer o barco passar ao largo da ilha e se perder na imensidão.
Os jatos comerciais transformavam-se em estrelas-guias modernas apontando para o paraíso.
Capítulo I · O farol invisível no céu, 1986
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VídeoContornando o Morro Dois Irmãos e a Ponta da Sapata, o vento enfraquece atrás das montanhas. Os veteranos colam o casco na pedra para capturar as rajadas frias que descem a encosta.
O tradicional banho de mar nas águas mornas limpa a alma e lava o cansaço da jornada. Depois vêm a acolhida no arquipélago e a premiação sob o pôr do sol do Forte dos Remédios. A prova termina no Boldró, a regata não.
Anualmente, jovens moradores do arquipélago sobem a bordo dos veleiros participantes, plantando a semente da vela oceânica na juventude local.
Tartaruga Marinha para o penúltimo colocado. Prêmios para o tripulante mais jovem, o mais velho, o maior percentual de mulheres a bordo e o barco vindo de mais longe.

A semana que antecede a partida vira um templo de rituais náuticos: Quinta Náutica, palestras de meteorologia e segurança, feijoada e churrasco.
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FotoCláudio Copelo teve o primeiro infarto aos vinte e três anos. Trombose, e um AVC em 2016 que paralisou temporariamente seu lado direito. Recusou-se a abandonar o sonho de navegar: voltou à roda de leme e completou a travessia pilotando manualmente o barco ao lado da filha e do genro.
A competição termina na baía. O que começa ali é uma semana de encontros: cascos fundeados lado a lado, tripulações que se enfrentaram no mar dividindo a mesma mesa, e uma ilha que recebe a frota como quem recebe parentes de volta.
Tudo isso acontece porque o vento nos conecta.
Acervo REFENO · O vento nos conecta
FotoAqui termina a travessia. Tudo o que você decidiu ao longo das 300 milhas foi registrado neste diário: é o fechamento da sua navegação, e o que você leva da 37ª REFENO.
| Marca | Barco | Tempo | Ano |
|---|---|---|---|
| Recorde absoluto | Adrenalina Pura | 14h34min54s | 2007 |
| Monocasco | Camiranga | 19h03min18s | 2017 |
| Maior campeão | Adrenalina Pura | 9 fitas azuis | até 2024 |
| Maior frota | Edição de 2004 | cerca de 146 barcos | 2004 |
Gere uma arte com o seu nome, o seu tempo de travessia e as decisões que você tomou nas 300 milhas. É o registro de quem atravessou — pronto para compartilhar com a sua tripulação.
Você atravessou em cruzeiro. Tem gente que atravessa em regata.
Tudo isso acontece porque o vento nos conecta



